À conversa com…Henrique Oliveira: jogador, árbitro e treinador de Andebol. Com apenas 29 anos, Henrique tem já um rol de experiência para contar e partilhar. Natural de Horta, Faial, nos Açores, este jovem mudou-se para Vila Real em 2008, para ter mais visibilidade e apostar no Andebol.

Vamos à descoberta deste profissional que se divide em várias facetas.

 Enquanto jogador…

Como surgiu a paixão pelo andebol?

O andebol surgiu na minha vida em 1989 quando tinha 7 anos. Como todas as crianças, nessa idade querem é jogar futebol e também não fugi à regra. Pedi aos meus pais para jogar futebol ao qual a resposta foi negativa, a minha mãe não deixou porque para ela a ideia do futebol é que como era na rua ao frio e à chuva e como na altura os campos eram pelados, podia magoar-me e sujava a roupa. Então propuseram-me que poderia fazer desporto mas na condição que deveria ser dentro dum pavilhão e aí surgiu o andebol no único clube da terra, o Sporting Clube Horta.

Quando te apercebest que realmente tinhas qualidades no andebol?

No início foi muito complicado, com 7 anos não tinha noção o que era o andebol jogado, via os jogos da equipa sénior e tive que aprender a jogar com uma bola na mão.

Na época 92/93 estava no último ano de minis e fui convocado para uma selecção da ilha de infantis para um torneio regional e foi aí que tive noção que os três anos que pratiquei andebol já serviram para esse objectivo.

 Até onde chegaste?

Na época 96/97, no escalão de iniciados, fui campeão regional e estive numa fase final nacional para discutir o campeão nacional da 2ºdivisão e subida à 1ºdivisão, mas a diferença que havia entre os clubes da região e os continentais eram muitas. Na mesma época fui convocado para uma selecção dos Açores para o conhecido torneio internacional “Madeira handball”.

Na época 98/99 no escalão de juvenis fui novamente campeão regional em que estive igualmente numa fase final nacional.

Na época seguinte, foi para mim o ponto alto, passei para o escalão de juniores e recebi uma proposta para fazer parte do plantel seniores como semi profissional que na altura estava na 1ºdivisão. Foi uma época muito complicada com poucas oportunidades para jogar, porque sendo um clube de 1ºdivisão, a aposta do clube era nos jogadores profissionais. Na época seguinte ainda sendo juniores fui emprestado a um clube da 3ºdivisão para rodar e depois voltei. No final da época 01/02 tive 2 graves lesões e quando fiz a pré-época no Sporting Clube da Horta reparei que já não era o mesmo jogador devido às lesões e tive que tomar uma decisão muito complicada, foi dar um ponto final.

Que referências tens no mundo do andebol?

Joguei sempre na posição de central e inspirava-me num central Francês Jackson Richardson e o Croata Ivano Balic. A nível nacional tive o privilégio de jogar contra o melhor jogador de sempre, Carlos Resende. 

Qual o teu clube preferido no andebol?

Sporting Clube da Horta. Foi lá onde aprendi tudo o que sei de andebol.

 Enquanto árbitro…

Como surgiu a oportunidade de seres árbitro?

Foi na época 01/02, quando tive as duas lesões, na altura tive a noção que não voltaria a ser o mesmo jogador. Todas as épocas há cursos para novos árbitros e treinadores e nessa altura decidi tirar os dois cursos, não queria abandonar o andebol, pois o andebol já fazia parte da minha vida.

 Desde quando apitas jogos de andebol?

Foi logo na época que tirei o curso, lembro-me que tirei a melhor nota e como prova final arbitrei o jogo que decidia o título regional de iniciados.

Qual o teu ponto mais alto da arbitragem?

A época 2005/06 foi um ano em cheio para mim. Arbitrei cerca de 12 jogos da divisão de elite, na altura a competição número um da FAP, mas principalmente estive presente numa final europeia a Taça Challenge como oficial de mesa. Recordo que até hoje só três equipas nacionais chegaram lá e o Sporting Clube de Portugal venceu nas duas épocas
É fácil ser árbitro de andebol?

Não é fácil ser árbitro num desporto colectivo. O trabalho de um árbitro não é fácil, até porque errar é humano, mas parece-me que o papel do árbitro não é só apitar. Sem dúvida que a tarefa não é fácil, e ser árbitro não é só levar apito e cartões para dentro do campo.

A integridade física dos jogadores deve ser salvaguardada acima de tudo, mas é possível que por vezes não consigam fazê-lo, por falta de experiência, por azar, porque não estamos bem e, em alguns casos, porque os próprios jogadores não deixam.

E há uma lei que na minha modesta opinião é das mais importantes, que se chama a lei do bom senso, essa sim faz falta a muito boa gente, directores, jogadores, treinadores e árbitros, sim porque todos erram.

Os treinadores erram quando pensam que o jogador X vai fazer uma coisa e depois faz outra, têm que optar e isso às vezes não é fácil, têm que decidir na hora e ver quem está melhor, mas nem sempre sai como eles querem.

Os jogadores erram constantemente, golos,   passes, defesas. Erram “N” decisões ao longo de um jogo.

Os dirigentes também estão neste lote em que tomam opções todos os dias do início ao fim da época, e muitas vezes em prol do grupo e do colectivo.

Os árbitros erram como todos. É preciso é não esconder isso, não ter medo de encarar a realidade, pois só supera o medo quem o enfrenta, não vale a pena criar tabus, porque no desporto tal como na vida, só não erra quem não têm que tomar opções.

Acha que actualmente a arbitragem nacional é devidamente compensada elo seu trabalho e esforço no contexto do Andebol Nacional?

Vou responder quando estava até à época passada como árbitro nacional e penso que não é compensada. Compreendemos que são poucos árbitros e que temos de chegar a todos os lados, mas torna-se difícil fazer 5 ou 6 jogos num fim-de-semana como fazia, muitas vezes após percorrer longas distâncias, percorria por fim de semana cerca de 400km. O 5º e o 6º jogo já não permitem a tal diversão, pois o cansaço e a saturação apoderam-se de nós. Fazemos o que gostamos, e gostamos do que fazemos, mas torna-se cansativo fazer tantos jogos. Monetariamente, os valores não são elevados e a tributação fiscal é algo que não joga a nosso favor e foi uma das razões pela qual deixei de ser árbitro nacional e ficar só como regional e arbitrar jogos nesta zona geográfica..

Indica-nos um árbitro que te serve de modelo. Porquê?

Vou falar em dois árbitros, por várias razões. O primeiro porque foi com ele que aprendi arbitrar, foi com ele que antes, durante e depois dos jogos falávamos e discutíamos sobre situações boas e as más. Foi com ele que cheguei ao topo do andebol nacional e tive o privilégio de arbitrar a competição mais importante na época da Federação Andebol Portugal e falo do Rui Machado.

O outro árbitro tem a minha idade, conheci-o quando ele começou arbitrar a nível nacional e acompanhei a trajectória e evolução dele e hoje é o melhor árbitro nacional e está num lote dos melhores árbitros do mundo, falo do leiriense Eurico Nicolau.

 

Que conselhos davas a alguém que quisesse ser árbitro de andebol?

Primeiro de tudo tem que ter gosto pelo andebol, depois tem vários aspectos a ter em conta, o equilíbrio emocional em todas as suas acções, isto ajudará a tomar decisões mais acertadas, nos momentos mais difíceis. Demonstrar organização, disciplina, responsabilidade e cumpra os horários em seus compromissos, pois estes princípios são fundamentais para se obter sucesso e reconhecimento. Nas relações humanas usar e abusar de expressões chaves que demonstrem educação 

Enquanto treinador…

Desde quando és treinador de andebol?

Como disse anteriormente, tirei o curso de treinador na época 01/02 mas antes de o tirar, tive duas experiências como técnico do Sporting Clube da Horta nos masculinos e femininos.

Como surgiu a oportunidade de seres treinador no único clube da cidade?

Estou sensivelmente há quatro épocas ligado ao andebol em Vila Real e quando cheguei deparei-me com um andebol praticamente igual ao que estava habituado nos Açores. Há boa matéria-prima, mas a nível de aprendizagem não desenvolviam. No final da época passada, apresentei um projecto para coordenar a formação do Vila Real e Benfica ao qual foi aceite, neste momento estou a treinar equipa de iniciados e para a próxima época tenho em mão o surgimento do andebol feminino.

Onde aspiras chegar enquanto treinador?

Ser treinador nunca foi um sonho, por isso estou neste projecto em prol do andebol nesta cidade incentivando desta forma os jovens a praticar a modalidade já que a prática desportiva é importante para a saúde física e mental dos atletas.

Tens algum desejo para a presente época?

Quando assumi o cargo de treinador de iniciados tive logo como objectivo passar à 2ºfase nacional algo inédito para a cidade, foi um objectivo que não passava na mente do clube nem nos próprios atletas. Hoje a uma jornada de cumprir esse objectivo está nas mãos dos jogadores.

Para concluir…

Podes partilhar com os nossos leitores o que mais te fascina neste desporto?

O andebol fascina-me pelas jogadas, técnicas, contacto físico e trabalho em equipa, porque é um jogo que requer concentração como o objectivo principal de marcar golos e não os sofrer.

Sentes que o Andebol é desvalorizado em detrimento de outros desportos (como por exemplo o futebol)?

Depende da região. Por exemplo na minha ilha, onde me formei no andebol, esta modalidade é muito mais valorizada e até mesmo mais praticada. Isto pode dever-se ao facto dos resultados serem mais aliciantes, já que o Sporting da Horta encontra-se na 1ªdivisão, enquanto no futebol disputam-se os campeonatos regionais. Tal como acontece por exemplo em Moimenta da Beira, Tarouca e Lamego.

Mas mesmo assim acredito que noutras zonas do país o futebol tem mais importância, e isso é verificado por exemplo no destaque dado nos meios de comunicação social.

Quando lês a secção de Desporto num jornal, o que sentes por o espaço ser maioritariamente dedicado ao futebol?

Sinto que poderia ter sido cedido mais espaço, mas compreendo que o futebol é a modalidade desportiva que vende mais e que move mais multidões, por isso é-lhe dada mais importância.

O Andebol tem futuro em Portugal?

Actualmente o andebol está a viver uma fase melhor já que temos o exemplo das selecções das camadas jovens em fases finais de campeonatos europeus e mundiais o que valoriza ainda mais os jovens do nosso país e que haja com isso uma aposta forte por parte dos clubes nos jogadores portugueses em vez de apostarem nos estrangeiros, como acontece no futebol e noutras  modalidades.

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