Portugal está a passar por uma fase complicada que já se arrasta há anos ou mesmo décadas. Mas agora o país está mesmo a enterrar-se num enorme buraco, pode-se mesmo comparar e antecipar a sua situação olhando para o caso da Grécia.
Por cá surgem novas medidas de austeridade depois do FMI e da Troika surgirem nas vidas dos portugueses e no seu vocabulário. Mas muitos ainda não sabem o que se passa em Portugal nem o que muitas dessas palavras e expressões associadas à crise significam.
No glossário que se segue fica o significado e a explicação de algumas dessas expressões que tanto se ouvem nas bocas dos portugueses.

Apertar cinto – “Apertar o cinto” é das expressões a que os portugueses estão mais habituados a ouvir. Na prática sabem bem o que significa: cortarem nas despesas o mais possível que possam, poupar e saber bem economizar o seu dinheiro. Seja em casa, nos transportes, nos empréstimos que se contraíram, formas de poupar não faltam para tornar o orçamento mais leve.
Buraco da Madeira – O “buraco” da Madeira é das expressões mais actuais e que se associa a Alberto João Jardim, Presidente do Governo Regional da Madeira. Esta expressão refere-se ao buraco descoberto nas contas públicas da Madeira, ou seja, está relacionado com as dívidas omitidas pela Administração Regional da Madeira que veio a confirmar-se que tiveram um impacto perto dos 0,6 por cento do Produto Interno Bruto no défice português no ano passado. O INE e o Banco de Portugal divulgaram uma nota onde afirmam que receberam dados que dão conta de encargos assumidos pela Administração Regional da Madeira que não foram pagos e não foram reportados às duas entidades que apuram as contas nacionais portuguesas.
Crise – Dizem que a culpa da crise em Portugal é da crise financeira mundial. Mas Portugal está em crise há oito anos. Desde 2001, Portugal tem crescido a pouco mais de 1% por ano. Este crescimento é muito inferior ao crescimento dos países que rivalizam com Portugal na União Europeia. De acordo com o estudo Portugal tem um mercado laboral pouco flexível, uma administração pública burocrática e ineficiente, um regime fiscal demasiado complexo e maus indicadores macroeconómicos. Os obstáculos à liberdade económica em Portugal são o peso do Estado na economia e as leis laborais. O governo português acredita que em 2012 a economia cairá em 2,8%, seis décimos a mais do que o esperado até agora, e o desemprego aumentará até 13,4%.
Dívida Pública – A crise da dívida pública levou Portugal a pedir o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) não só para assegurar financiamento externo para a sua dívida soberana (dívida pública), como para obter esse financiamento a taxas de juro menos elevadas. Esta pressão sobre as condições de financiamento da dívida pública fez-se sentir através de taxas de juro cada vez mais elevadas e taxas insustentáveis a prazo para a economia portuguesa. As últimas estimativas apontam já para uma despesa do Estado com encargos decorrentes dos custos da dívida pública, em 2011, da ordem dos 7134 milhões de euros, mais 808 milhões de euros do que o montante previsto no Orçamento de Estado (OE) para 2011.
Especulação Financeira – É uma aposta baseada nas previsões acerca dos desdobramentos económicos do futuro de um país, um evento, uma setor de atividade ou de uma empresa. Por um lado temos oferta (países) e por outro lado procura (os investidores), que se reúnem no mercado de dívida pública para negociar.
As medidas de austeridade e a recessão enfraquecem as possibilidades da economia do País aos olhos dos especuladores e dos mercados financeiros. Devido a isso, a Moody´s decidiu afundar em quatro níveis o rating devido ao risco de Portugal necessitar de um novo pacote de empréstimos. Este corte é a resposta dos mercados às medidas de austeridade anunciadas, há falta de credibilidade no país, falta de confiança.
FMI – O Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma organização internacional que pretende assegurar o bom funcionamento do sistema financeiro mundial através da monitorização das taxas de câmbio e da balança de pagamentos, através de assistência técnica e financeira. O FMI auto-proclama como uma organização de 187 países e tem como objetivo promover a cooperação monetária internacional; favorecer a expansão equilibrada do comércio; oferecer ajuda financeira aos países membros em dificuldades económicas, contribuir para a instituição de um sistema multilateral de pagamentos e promover a estabilidade dos câmbios.
Golden Share – Uma golden share é uma participação accionista detida pelo Estado, que apesar de ser minoritária confere poderes especiais. Por isso mesmo, está em discussão no seio da União Europeia proibir os vários países membros de possuir golden shares em empresas, por norma que já pertenceram ao universo público e foram privatizadas. Depois de Portugal pedir ajuda externa, acabaram-se os direitos especiais que detinham em empresas cotadas. A perda de influência do Estado nas empresas onde detém ‘golden shares’, que lhe permitem por exemplo nomear gestores ou vetar determinado negócio, pode tornar as empresas mais vulneráveis a investidores estrangeiros, o que aumenta o seu ângulo especulativo.
Hipoteca – Cada vez mais em Portugal há casas a serem hipotecadas por falta de pagamento. O aumento das taxas de juro de habitação aliado ao aumento do desemprego e a diminuição dos salários deixa muitas famílias sem condições para continuarem a pagar a mensalidade do empréstimo bancário.
Inflação – É um desequilíbrio económico caracterizado por uma alta geral dos preços e que provém do excesso do poder de compra da massa dos consumidores em relação à quantidade de bens e de serviços postos à sua disposição. A taxa de inflação é um indicador referente à taxa de crescimento dos preços no consumidor. Em Portugal, a taxa de inflação ronda os 2,8% mas o Banco de Portugal prevê que a inflação em Portugal atinja os 3,6% devido a aumento do IVA, do aumento de impostos e do aumento dos preços de vários bens e serviços.
Juros – Juro é a remuneração cobrada pelo empréstimo de dinheiro. Antes de Portugal começar a pagar o empréstimo da troika (em 2015 ao FMI e 2016 à União Europeia), a factura do acesso aos 78 mil milhões de euros será um fardo pesado nas contas públicas e que começa a ser cobrada já este ano. Segundo dados do FMI, entre 2011 e 2014 (período de duração do programa de assistência), Portugal terá de pagar só em juros, encargos e comissões 2,331 mil milhões de euros pela parcela de 26 mil milhões de euros entregue pela instituição de Washington.
Liquidez – Em análise de crédito, a liquidez de um cliente refere-se à probabilidade de que ele venha a honrar seus compromissos de curto prazo com os credores (comércio, indústria, bancos, etc.), na data prevista. Ou seja, é a sua capacidade de pagamento. Em Portugal, fonte oficial do Governo adiantou que a falta de liquidez da Banca foi o factor que mais pesou na decisão do Governo de pedir ajuda externa. Esta liquidez de Portugal tem sido feita à custa de taxas insustentáveis com um custo insuportável a médio e longo prazo.
Medidas de Austeridade – Portugal tem de apertar ainda mais o cinto. As principais medidas de austeridade que os portugueses vão sentir são: o IVA sobe para 23% para aumentar a receita fiscal; os salários da função pública caem 5% para reduzir a despesa pública; as pensões serão congeladas para diminuir a despesa do estado; o abono de família será cortado, os exames médicos serão mais caros e haverá mais descontos na segurança social.
Nacional – “Compro o que é nosso” é uma campanha da Associação Empresarial de Portugal que promove o consumo de produtos produzidos em Portugal contribuindo para fortalecer a economia e criar postos de trabalho. Pretende ainda mobilizar os trabalhadores a produzirem com brio e a terem orgulho no tecido empresarial português; Mobilizar consumidores a preferirem produtos e marcas que geram valor acrescentado em Portugal sensibilizando-os para os benefícios económicos e sociais que tal comportamento terá no nosso país; Dinamizar a economia e elevar a auto-estima e o amor-próprio dos portugueses.
Omissão – Não nos surpreende as notícias que cada vez mais ouvimos em relação à corrupção e omissão de muitos desfalques por parte de políticos. Por exemplo, o Presidente da República admitiu que a omissão do buraco financeiro da Madeira afecta a credibilidade internacional portuguesa, anunciando que irá apresentar legislação para que omissões como estas não se repitam.
PIB – O produto interno bruto (PIB) representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região durante um período determinado. O PIB é um dos indicadores mais utilizados na macroeconomia com o objetivo de medir a atividade económica de uma região.
Em termos de PIB, Portugal está a cair no “ranking” de riqueza criada por habitante das economias avançadas, segundo as últimas previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI). E as novas medidas de austeridade previstas para o orçamento de 2012 provocarão ainda mais uma recessão na economia portuguesa de 2,8% do PIB.
Quedas da Bolsa – As Bolsas europeias estão em queda devido à instabilidade dos governos, prejudicando sua capacidade de enfrentar sua dívida própria.
A confiança dos investidores na zona do euro tem recuado o que se reflecte na queda de 1,5% nas vendas na zona do euro e recuo de 0,8% nos 27 países que compõem a União Europeia.
Risco de Falência – Depois da Grécia, Portugal continua a ser o segundo país com maior risco de bancarrota (58,79% de risco de falência). As taxas de juro das obrigações do Tesouro atingiram novos máximos nos mercados internacionais, colocando Portugal no top 15 dos países com maior risco. Portugal, Espanha e Grécia partilhavam problemas comuns, tal como a perda constante de produtividade e o elevado défice público.
Spreads – O spread bancário é um valor percentual que os bancos aplicam a uma taxa de referência e que pode ser considerado como a margem de lucro do banco.
Noutros termos, é a diferença entre o preço de compra e o preço de venda de um bem. Por cá, depois de o Eurostat ter revelado que o défice na zona euro mais do que duplicou o limite de 3% no ano passado, para os 6,3%, os investidores estão a dar novos sinais de nervosismo em relação aos países do sul da Europa. Os indicadores de risco da dívida pública portuguesa estão em máximos recorde.
Troika – Troika designa uma aliança de três personagens do mesmo nível e poder que se reúnem em um esforço único para a gestão de uma entidade ou para completar uma missão. É composta pelo Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu. Tem como missão avaliar o cumprimento dos objetivos delineados no acordo com Portugal. Esta avaliação feita pela troika é que decidiu a disponibilização do empréstimo tanto da parte do FMI como da União Europeia.
Unidade de Participação – Representa uma parcela do valor de um fundo de investimento que é comercializado junto dos investidores. Deter uma UP significa deter uma quota-parte desse fundo e participar na sua valorização ou desvalorização. A UP tem uma cotação actualizada diariamente, que é calculada de acordo com a evolução dos activos que constituem o fundo de investimento em questão.
São emitidas a um determinado valor, na mesma data em que o fundo é lançado, que permitirá quantificar a sua valorização no futuro. Devido à crise os mercados são incertos e voláteis.
Volatilidade – A volatilidade é a variabilidade, a sensibilidade do valor de um determinado bem/título às variações globais dos mercados financeiros nacionais e internacionais. Títulos muito voláteis são muito sensíveis às suas condicionantes. Por exemplo, neste momento os títulos da banca portuguesa estão bastante voláteis dadas as incertezas que pairam sobre o mercado financeiro português.
Xenofobia – Esta palavra significa aversão aos estrangeiros. Quando há uma situação de crise cresce um sentimento patriótico para defender o seu país. Vêm as importações como uma ameaça ou mesmo os estrangeiros que vêm trabalhar para o nosso país são mal vistos, pois vêm “roubar” os postos de trabalho aos portugueses. É o exemplo dos imigrantes chineses que abriram negócios em Portugal que vendem produtos chineses em detrimento dos produzidos em Portugal. Estes são criticados, pois não contribuem com impostos como os restantes e a situação é vista como “o dinheiro não fica em Portugal”.
Zona Euro – Pertencer à União Europeia tem as suas desvantagens. Devido à crise estamos comprometido com um programa de ajustamento, mas os líderes da União Europeia já advertiram que Lisboa deve estar preparada para tomar mais medidas de austeridade se tal for necessário, a prosseguirem os seus esforços e manterem-se comprometidos com as metas acordadas para garantir a sustentabilidade orçamental e a melhorar a competitividade. Há quem diga que a actual crise das dívidas soberanas reflecte tudo o que falhou na construção da União Monetária.