Era um dia como os outros, não fosse eu um jornalista. Sim, porque um jornalista nunca tem um dia normal… Tinha de me despachar porque já estava mais que atrasado e o “bigodes” (o chato do meu patrão) estava desejoso de me despedir. Apesar de a minha profissão ser tudo menos normal, era ela que me ajudava a pegar a linda casa que a minha querida namorada me obrigou a comprar. Linda mesmo, não fossem as três empregadas que tenho de pagar para a limpar, porque a minha querida princesa não pode estragar as unhas de gel de 25 euros.

Chega de lamúrias! Lá ia eu para o jornal onde trabalhava há mais de 20 anos e onde todos os dias aquele “bigodes” me chateava. Hoje era uma dia importante e ia pela primeira vez sozinho (sim sozinho, o meu chefe deu-me uma peça só a mim) entrevistar um mendigo. Como não queria dar má impressão, levei o meu fato da Calvin Klein e as minhas sapatilhas da Nike. Eu estava para arrasar, aposto que a doida da Maria (minha colega na redacção), se me visse, não me resistiria. Eu sei que ela está sempre a dizer que lhe meto nojo e que nem que fosse o último homem na Terra ela preferia suicidar-se a ficar comigo, mas aposto que hoje ela viria comer à minha mão.

Como disse, lá fui eu entrevistar um mendigo sobre a vida dele. Era uma notícia com o título: “um dia na vida de um mendigo” (que interessante, se ainda fosse um dia na minha vida, agora de um mendigo), mas aquele bigodes é que sabe. É por estas e por outras que aquele jornal só é lido por ele; é que nem eu tenho paciência para o ler, pois aquilo é mais seca que ler as instruções de um desodorizante.

Quando cheguei à ponte, onde morava aquele sem abrigo, consegui cheirá-lo logo. “Que pivete!” pensei… notava-se que era sem abrigo. Lá foi ter com ele e fiz-lhe a entrevista. Gostaria de vos dizer agora que tudo correu pelo melhor e que a minha entrevista foi um sucesso, mas… a verdade é que não foi. Aquele marginal roubou-me e acabei por ir de boxers para casa. Acham normal? Roubou-me o meu melhor fato e logo o único que tinha de marca. Era a primeira vez que o tinha usado e agora era aquele malcheiroso que o estava a usar… Que nojo e que desperdício! Liguei logo ao “bigodes” e sabem que mais? Disse-me que estava despedido e que mais cedo ou mais tarde também estava a dormir de baixo da ponte. Isso queria ele, porque eu posso ser parvo, mas não sou burro. Porque acham que me juntei com uma rapariga que estuda para professora? Porque as professoras, hoje em dia, têm muito trabalho e são ricas. Para além disso, com a idade da minha jovem namorada (22 anos) iria ficar rico. Eu sei que é só depois do curso e que ela já está repetir o primeiro ano pela quarta vez, mas eu acredito que ela ainda vai dar aulas numa universidade. Por isto tudo, para que precisava eu de trabalhar? Eu ia ser rico.

Contudo, para dizer a verdade, até estava com saudades do trabalho… Afinal de contas, já trabalhava lá há 20 anos e era há esse tempo que já andava a tentar conquistar a Maria. E agora quando é que a ia ver? Quando iria eu ver aquelas pernas naquelas meias de renda verdes? Ai que mulherão! Tinha umas ancas… Adorava ver a dificuldade que ela tinha em passar numa porta, por causa das ancas… Era linda mesmo, mas agora tinha mesmo de ficar com a minha namorada para assegurar a minha vida. Sim, porque com 77 anos ainda tenho muito para viver.